Nunca tive tanta pulga. Para qualquer lado que me vire lá está uma. É à frente, é atrás, mas no colo é onde mais as encontro. Todos os dias me perseguem, fujo, escondo-me mas encontram-me. São pequeninas e saltitam muito, dificilmente as agarro porque não param um minuto. Não há no mundo pulgas como estas, porque são: "As minhas Pulgas".

sexta-feira, 27 de março de 2015

Eu, Moi-Même e Euzinha três a dançar o tango

Sentadas no canapé, logo a seguir ao almoço digo a Moi-Même que a casa de banho está para limpar. Ela olha para mim com cara de "mete-nojo" e mantêm-se deitada, sem contudo me fazer crer que dali não tiro nabos da púcara nem limpeza da casa de banho. Olho para Euzinha, a brasileira à experiência (uma vez que Moi-Même não tarda muito vai ser recambiada para a sanzala de onde veio, em virtude de ser uma calaceira para o serviço), que é dócil, trabalhadora, sensível às limpezas, uma verdadeira fada do lar. Ela, olha para Moi-Même e abana a saia rodada como se fosse desfilar na escola de samba do Tipué, no carnaval e desata logo a limpar o pó e a varrer o terreiro.

Eu, madame que nada faz por ter, agora, Euzinha, digo-lhe para fazer o que ainda não foi feito, a modos que Pedro Abrunhosa, ementes eu descansava este corpo Danone e massagava o ventre cheio de uma bela duma caldeirada feita por Moi-Même, vá lá, pelo menos ainda faz umas comidas deliciosas.
Olho para o alto do terreno e vejo aquela peste de Moi-Même a plantar umas alfaces que eu havia comprado. Imaginei logo que a confusão entre elas (Moi-Même e Euzinha), pois sei que quando ela mexe na terra suja sapatos, roupa sem falar nas unhas dos pés e mãos, cabelo, pois que dá-lhe sempre a comichão no alto da cachimónia quando tem as mãos sujas.
Imaginei de seguida a casa de banho limpa a brilhar que dá para se ver ao espelho no chão de azulejos, quando a louca de Moi-Même entrar com terra enfiada nos regos dos sapatos de sola de pneu.
Não tardou muito, assim que entra na casa de banho limpa e deixa terra por todo o sítio, oiço Euzinha a maldizer a hora, o minuto e o segundo em que esteve de rabo para o ar assim a modos que alemão em tempo de guerra a limpar, a escafiar a casa de banho.
Eu nem sabia se brigava com Moi-Même se elogiava Euzinha.

Fotografia: Praia do Almirante Reis, no centro do Funchal

quinta-feira, 26 de março de 2015

E depois digam que sou egoísta e não partilho as novidades

Acabei de ler que "ter um bocado de gordura abdominal, pode ser, na verdade, benéfico, pois protege os órgãos mais sensíveis, tais como estômago e intestinos..."
Bem, eu nem li mainadinha, isto chega para me dar por satisfeita por transportar todos os dias este pneu à roda da cintura.
Mulheres da minha vida, falo para aquelas que como eu têm uma roda de gordura ali ou aqui, e massajo, neste momemto, o sítio do costume, sintam-se vaidosas e gritem aos quatro cantos do mundo, embora ele seja redondo como uma bola de catchu, que ela está ali com uma finalidade: proteger os orgãos interiores e, não a tiram porque não querem ficar desprotegidas, sim, não é porque não conseguem por mais exercício que façam. E se virem aquelas com mais gordura na barriga pensem que essas são mais previdentes e receosas, por isso duplamente protegidas.
Ai que alegria abrir o diario e ler esta notícia. É que assim dá-me forças de usar aquele biquini reduzido e mostrar a minha protecção abdominal.

Daqui a dias só há a carcaça da Angelina

Refiro-me à Angelina Jolie. Já tirou mamas, agora ovários e útero, pelo andar tira estômago, fígado, rins e por fim o cérebro.
Não sei se será a melhor opção, mas quem sou eu para dar opiniões, aliás, ela nem me perguntou quando há dias estivemos na passadeira vermelha e olhem que passámos um bom bocado juntas a falar de crianças: ela dos seus seis filhos eu das Minhas Pulgas, de doenças e de, vá lá, do seu Brad que é qualquer coisa de bradar aos céus.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Os dilemas da minha vida

Ponho ou não toalha no chão? É que não houve tempo.

À noite só à noite

Não não estou a trautear a cantiga pimba, nada disso, estou a dizer que é só à noite que conto histórias às Pulgas, na cama. E não há vez nenhuma que durmam sem a história. Ontem não foi excepção.
Avó, conta uma história, pede um de cada vez. Só se estiverem quietos sem abanar a cama, digo. E começo a contar: "era um vez uma linda princesa que casou com um lindo príncipe e foram felizes para sempre".
Silêncio.
Só? Só isso? Quero uma história longa, e no escuro vai a mão da Baixinha desenhando uma linha.
Uma história de mais ou menos quinze minutos, dia agora a Maiveilha.
Era uma vez.....e calei-me. Então? Continua, avó. Vocês disseram longa e  de quinze minutos. Estou a fazer o que pediram. É quinze minutos....de silêncio.
Ai, que chata é esta avó! Quinze minutos com palavras. Entendes?, explica a Maiveilha. Ah, agora percebi, digo.
E começo: "era uma vez uma linda princesa...laranjas limões, anonas, gatos, lagartos, ratos"...e outras imperceptíveis. Hãn?! Avó, não percebo nada. És mesmo chata. Oquei, frases, diz frases em vez de palavras, estou cansada de te explicar tudo, desabafa a Baixinha.
Ah, agora percebi! E contei uma história só que a meio já o me Gu-Gu ressonava, a Maiveilha resfolgava, só Baixinha fazia desenhos no escuro.
Não sou muito chata como ela diz, pois não?

terça-feira, 24 de março de 2015

Era só o que faltava!

Estava eu e mê senhor a preparar a terra para plantar alfaces quando o gato Ruca, que é um preguiçoso que só quer sol e taça cheia de comer (e se fôr do lume ainda melhor, a fumegar se possível) passa entre as minhas pernas, a correr (e eu a pensar que era para fugir antes de levar uma sapatada, mas não). O peste do gato mais preguiçoso que se houvesse prémio para "gato mais preguiçoso não há" ele era o detentor do título, aproveita o buraquinho já preparado para um pé de alface e...ali mesmo agacha-se a fazer a sua necessidade, sem se importar com os presentes, bem, "presente" foi o que ele deixou, não sem antes tapar e bem.
Só depois é que pensou que, por via disto, estava sujeito a um pontapé no traseiro e foge à frente do meu sapato. Mas eu fiz uma boa acção, não o interrompi no acto, deixei- o saborear o momento e depois é que ia levar a trolitada se não tivesse pedido patas ao demo. Gato esperto.

E depois ainda me criticam...

...deitam-me abaixo e pior negam-me com frases do género: "ah, idiotices tuas", "só mesmo tu para pensares isso", quando digo que, ultimamente, tem caído do céu não chuva nem cagadelas de pombas mas aviões.
E cada vez mais tenho medo...não é bem medo é pavor daquele que me faz ficar sem pinga de sangue que mais parece chupada por um vampiro e com dores de parto. Sabem aquelas dores que parece chumbo na barriga a precisar de sair por um buraco de agulha? São essas que sinto quando tenho de entrar naquele canudo com uma espécie de asas de águia e faz que voa como um falcão. E, de cada vez que entro num penso que poderá ser a última vez. Digo "última vez" porque juro que da próxima vou a remos e depois abano a cabeça e digo: "ah, sua tonta, atão não vives numa ilha onde viajar de barco é mais caro e mais tenebroso; lembraste dos marinheiros que descobriram esta coisa, lembraste?"
Pronto, e só vinha cá dizer que do céu caiu mais um avião.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Por muito que me custe lá terá que ser

Hoje é dia de festa por aqui, o pai das Minhas Pulgas faz nada mais nada menos que trinta e seis anos (poça, e eu a pensar que era trinta e cinco!).
Reza a lenda que aquele rapazinho que nasceu numa aldeia da serra da Estrela, mais perto de Espanha que da capital, tão cheio de cabelo e tão louro, iria se transformar num homem barbudo e careca. Reza ainda a lenda que quando nasceu uma fada leu-lhe a mão e disse que num futuro próximo ele iria ser cambiado para uma ilha paradisíaca no meio do oceano, e aqui toda a gente olhou admirada para a fada pois desconheciam essa ilha que ficava lá nos confins do sul, para estudar e por lá ficaria, para desgosto dos seus familiares mas, encontraria uma princesa linda de cabelo escuro com ondas como as da sua ilha e seria o pai de três lindas Pulgas que tornariam a vida de uma triste rapariga já entradota na idade e seria estimado como um filho. Ora, a lenda não fala se este lindo rapazinho de cabelos loiros nascido numa aldeia da Beira viverá feliz para sempre pois esta parte a fada só lhe disse ao ouvido, embora os seus pais estivesse de pescoço esticado para ouvir.
Por isso reza a lenda que joje à noite soprará as trinta e seis velas.
Parabéns genro jomem das beiras.
E por isso por muito que me custe lá terei de ajudar o rapazinho, hoje, careca barbudo, outrora cheio de cabelos loiros a comemorar as suas primaveras e a comer aqueles manjares de rei próprios da sua terra-natal.
Digo "por muito que me custe" porque não consigo resistir aos seus pitéus e assim nunca mais eu tiro aquele rolo embutido na barriga.

Por vezes tenho a sensação...

...que sou fotografada pelas costas.

domingo, 22 de março de 2015

Vem dar quase ao mesmo

Estava Pulga - a Baixinha, de sete anos, espevitada mais que uma cozinheira, no colo do avô a olhar o monitor do computador, no google earth, a ver o mundo a rodar e, ao sintonizar a zona da Covilhã, pergunto-lhe se sabe quem vive ali naquele ponto.
Ignora-me e continua atenta ao monitor. É que nem olha para mim, a peste! Não me ouviu? Ó diacho! Volto à carga e, mais alto, lanço a pergunta ao ar, novamente.
''Sabes quem vive ali naquele ponto?" Nada. Não me liga nenhuma, quiçá a processar a pergunta. Então, o avô, baixinho ao ouvido ajuda-a dizendo: "a minha avó."
E, assim que ouviu a resposta, diz em voz alta, desta feita, olhando para mim.
- A avó do avô.

sábado, 21 de março de 2015

É que falam e não se calam

"Bem-vinda, Primavera", é o que leio por todo o lado, mas esclareçam-me, se faz favor, que esta cabeça de melancia oca ainda não entendeu bem: primavera não é, supostamente, dias alegres de sol mesmo que pouco quentes? Pimavera não é dias de chão seco, sem folhas deitadas ao chão pelo vento? Primavera não é idas à praia e cervejas ao fim da tarde juntamente com doses de lapas e camarões?
Atão como é que ainda ontem as Pulgas foram à neve e, deixem que vos desabafe, também adorava ter ido, chove, está frio que só apetece chocolate quente e botijas de água nos pés e ando de casaco, expliquem-me. É que eu estou baralhada ou vocês estão mortos de saudades da primavera e já a vêem por todo o sítio.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Às vezes penso que tenho bom gosto


E os outros, os que respeitam, os que cumprem, é que são os otários, é isso?

Quem está a seguir? pergunta o empregado de dentro do balcão, olhando para mim e para uma rapariga ao meu lado. Eu levanto a senha número 92 e constato que as senhas não estão a funcionar, ou seja funcionar funciona, o empregado é que prefere gritar "quem está a seguir". A rapariga ao meu lado começa logo "eu é que cheguei primeiro, ai dele se não me atende, não tirei a senha mas cheguei primeiro".
O empregado clica até chegar ao 91, pois tinha visto o meu, e ninguém responde. A rapariga continua" eu cheguei primeiro, eu tou aqui há mais tempo".
Ele olha para ela com ar de confiança e diz: "quem chega primeiro é atendido primeiro". Perguntei-lhe a razão da senha, se não é para usar, retirem. É quem nem me ligou. E com sorrisos atendia a rapariga como se eu é que fosse a burra, a estúpida, a incivilizada...
Livro de reclamações, pedi.
Escrevi escrevi escrevi em suma desabafei. Quando entrego o livro ainda o oiço dizer, apontando com o queixo, pois tinha as mãos ocupadas: "não era preciso isso". Só lhe disse que se tivesse respeitado a sequência das senhas, se não tivesse atendido quem não tinha senha, embora estivesse colada ao balcão, eu não escreveria.
"Tem razão" diz- me. Eu respondo "agora é tarde".

quinta-feira, 19 de março de 2015

Bem, já que hoje é o dia do pai vou falar de pais e mães e pais das mães e dos pais

Carta aberta...sim, ainda não a meti no envelope nem passei a língua na cola para fechar...aos papás e mamas e pais dos papás e mamas que vão buscar as suas lindas meninas de laço grande na cabeça e  mochila violeta e meninos de colete e calção pelo joelho ao colégio e interrompem o trânsito porque param a bomba assim a modos que mal parada e ficam ali a criar raízes até que os seus meninos lindos de cabelo engomado e meninas lindas de laço virado para Belém cheguem à porta.
Papás e mamas e papás e mamas dos papás e mamas, saibam que a campainha da escola toca às quatro horas e só a essa hora é que os lindos filhos e filhas e netos e netas saem da sala. Saibam que ainda a porta da sala não é paralela ao portão e não fica ali ao virar para norte. Saibam que as professoras...e aqui deixo o meu longo cumprimento a elas, não estão, como pensam que elas estão, atrás da porta à espera que dê o badalo para mandar os alunos sairem a correr qual galinheiro de porta aberta a deixar bisalhos ao deus dará. Saibam que as suas meninas lindas de laço à cabeça e meninos coisa mailhinda do mundo vêm a patinhar ovos à conversa com os seus pares mostrando o brinquedo...refiro-me àquele que custa mais se quatrocentos euros, que o papá deu pela festa dos seus anos e por isso demoram a chegar ao portão, e porque sabem que o seu extremoso pai, avô, mãe ou avó, estão ali já à espera, mas dá tempo, os outros que esperem, porque " eu" sou a filha de quem sou e por isso esperem. Saibam que o parque perto da escola proporciona meia hora sem pagar mesmo a pensar nos colégios ali à beira.
Atão porque raio chegam à porta da escola às dez para as quatro ou melhor três e cinquenta puxam o travão de mão ficam a coçar os cabelos ou a atender um telefonema da empresa que de tão importante nem ouvem os apitos e businadelas dos outros, e os avós que devido à hora perderam uma tarde de sono e aproveitam para passar umas brasas, as avós que entrementes tentam passar de nível no Candy Crush, e as mamas que passam os olhos na última revista sobre a moda de primavera, sabendo que só depois das quatro é que as lindas meninas de laço grande já virado para sul e os meninos de colete e calção e cabelo penteadinho de risco ao lado chegam ao portão.
Poça, difícil entender, caramba! E os outros é que são os otários, é isso?

Arejado, escuro e em silêncio para domir com um anjo

Pra dormir nada melhor que juntar estes três factores. Eu, rapariga que sentada no sofá dormita mesmo que o filme seja de acção e faz aquele esforço mórbido para ver até final e quando dá por si tem a baba a escorrer pelos cantos da boca e os óculos dependurados no nariz mas virados para Marrocos (que fica ali em frente), assim que desperta do sono, olha para a televisão e fica como que perdida pois que no seu cérebro de abóbora amarela cheia de pevides, não percebe que o filme que começara a ver já acabara há, sensivelmente, uma hora e três quartos e que esta já é outro.
Atão, a rapariga que sou eu levanta este corpo que já foi danone, mas agora é Michelin, agarra nele ainda cansado e todo torcido que mais prece uma rosca, devido a estar sentado no sofá, e leva-o até à casa de banho para fazer o que tem a fazer neste sítio, despe-o, ou melhor tira o robe, fica com o rico pijama de bordado Madeira e deita-o. Assim que o deita no quarto arejado, escuro...e... descobre que não há silêncio. E porque não há silêncio?, perguntam vocês que tudo querem saber? E eu respondo porque não sou de meias palavras. Por que alguém, que não me atrevo a dizer quem, toca piano. E saem uns acordes musicais, tipo tum tum tum tum acompanhados de uns suspiros como se competisse com Bitoven.
Mas a rapariga que para dormir precisa dos três factores, e já tem dois, decide acompanhar o ritmo mas a dançar o fandango, e desata a dar de pés nos dois compositores. Pelo menos um deixou de tocar piano.